quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A cidade e as serras, uma análise freudiana

                          Civilização e tecnologia em A cidade e as serras, Eça de Queirós



Freud salienta que os homens buscam uma superação dos 2 primeiros fatores causadores de sofrimento através das ciências naturais e tecnológicas numa busca de domínio sobre a natureza e sobre o corpo mas ele lembra ainda que “o poder sobre a natureza não é condição única da felicidade humana, assim como não é único objetivo dos esforços culturais.” [p. 32].
No livro A cidade e as serras, Eça de Queirós ilustra através da personagem Jacinto a crença de que a felicidade que o homem busca tão incansavelmente estaria diretamente ligada à civilização e às suas tecnologias que, nas palavras dele, tornariam o homem “um magnífico Adão, quase onipotente, quase onisciente, e apto, portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do progresso todos os gozos e todos os proveitos que resultam de saber e poder.” [p.24]

Dessa maneira, Jacinto acredita, que quanto mais civilizado é o homem, mais feliz ele é. Há um episódio em que Jacinto mostra ao seu amigo Zé Fernandes as maravilhosas alterações que as próteses podem proporcionar ao corpo humano. Ele usa um binóculo e um telescópio para demonstrar a capacidade de potencialização que têm esses objetos sobre a visão humana e conclui: “tens aqui pois, o olho primitivo, o da natureza, elevado pela civilização à sua máxima potência de visão. E desde já, pelo lado do olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado, porque descubro realidades do universo que ele não suspeita e de que está privado.”
[p.25]
A esse respeito, embora Freud admita haver através das tecnologias e dos desenvolvimentos na ciência e medicina um ”positivo ganho de prazer e um inequívoco aumento na sensação de felicidade” [p.32], ele afirma que o que a civilização faz é nada mais do que procurar soluções para males que ela mesma causou e questiona o valor da vida longa – conquista do avanço das ciências – diante das dores e infelicidades causadas pela própria civilização.
O autor entende que “a palavra ‘civilização’ designa a inteira soma das realizações e instituições que afastam a nossa vida daquela de nossos antepassados animais, e que servem para dois fins: a proteção do homem contra a natureza e a regulamentação dos vínculos dos homens entre si.” [p.34] e que a cultura é um dos seus principais traços característicos, sendo culturais “todas as atividades e valores que são úteis para o ser humano, colocando a terra a seu serviço, protegendo-o da violência das forças naturais etc.”[p.34]; aponta ainda como traços culturais o uso de instrumentos, o domínio sobre o fogo e a construção de moradias.
Ainda segundo Freud, a produção e o uso desses instrumentos, que aperfeiçoam seus órgãos ou eliminam os obstáculos ao desempenho dos mesmos, aproximou o homem do ideal que esse faz dos deuses, oniscientes e onipotentes, tornando-se ele próprio “quase um Deus”[p.36] tal como Jacinto afirma no episódio acima narrado.
 Além desses já citados fatores, Freud lista como indicadores de civilização ordem, limpeza, cultivo à beleza às atividades psíquicas mais elevadas, nas quais estão incluídas atividades que se reservam à construção de ideias: realizações intelectuais, científicas e artísticas, além dos sistemas religiosos e, por fim, as relações sociais. Dessa última emergem os elementos culturais, como “      a primeira tentativa de regulamentar essas relações.”[p.40]
 Para que os homens estabeleçam relações sociais, é preciso que haja uma vida humana em comum, na qual o poder do indivíduo é substituído pelo da comunidade. Segundo Freud, esse é o passo cultural decisivo; a ele se segue a instituição da justiça, tendo como resultado final, nas palavras de Freud, “um direito para o qual todos contribuem com sacrifício de seus instintos, e que não permite que ninguém se torne vítima da força bruta.”[p.41]. Freud afirma ainda que “O homem civilizado trocou um tanto de felicidade por um tanto de segurança”[p.61] 
Fica claro que, dessa forma, a civilização reprime boa parte da liberdade e muitos instintos naturais do homem – inclusive os sexuais, que devem ser deslocados para atividades socialmente úteis, configurando o que Freud chamou de sublimação do instinto.
A atitude de Jacinto, num segundo momento do romance, de se mudar para o campo por ter sua felicidade frustrada enquanto levava uma vida extremamente monótona na cidade mesmo com todos os aparatos tecnológicos e científicos que possuía parece convergir com a teoria de Freud sobre o mal estar a que a civilização lega o sujeito. Dessa fora, Jacinto procura um equilíbrio entre a “civilidade”- expressa no aposento 202, na cidade - e a “não civilidade”, marcada pela amplidão, liberdade e leveza da Quinta de Tormes, no campo, onde Jacinto finalmente alcança a felicidade e a prosperidade.

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