Freud salienta
que os homens buscam uma superação dos 2 primeiros fatores
causadores de sofrimento através das ciências naturais e
tecnológicas numa busca de domínio sobre a natureza e sobre o corpo
mas ele lembra ainda que “o poder sobre a natureza não é condição
única da felicidade humana, assim como não é único objetivo dos
esforços culturais.” [p. 32].
No livro A
cidade e as serras, Eça de Queirós ilustra através da personagem
Jacinto a crença de que a felicidade que o homem busca tão
incansavelmente estaria diretamente ligada à civilização e às
suas tecnologias que, nas palavras dele, tornariam o homem “um
magnífico Adão, quase onipotente, quase onisciente, e apto,
portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do
progresso todos os gozos e todos os proveitos que resultam de saber e
poder.” [p.24]
Dessa maneira, Jacinto acredita, que quanto mais civilizado é o homem, mais feliz ele é. Há um episódio em que Jacinto mostra ao seu amigo Zé Fernandes as maravilhosas alterações que as próteses podem proporcionar ao corpo humano. Ele usa um binóculo e um telescópio para demonstrar a capacidade de potencialização que têm esses objetos sobre a visão humana e conclui: “tens aqui pois, o olho primitivo, o da natureza, elevado pela civilização à sua máxima potência de visão. E desde já, pelo lado do olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado, porque descubro realidades do universo que ele não suspeita e de que está privado.” [p.25]
Dessa maneira, Jacinto acredita, que quanto mais civilizado é o homem, mais feliz ele é. Há um episódio em que Jacinto mostra ao seu amigo Zé Fernandes as maravilhosas alterações que as próteses podem proporcionar ao corpo humano. Ele usa um binóculo e um telescópio para demonstrar a capacidade de potencialização que têm esses objetos sobre a visão humana e conclui: “tens aqui pois, o olho primitivo, o da natureza, elevado pela civilização à sua máxima potência de visão. E desde já, pelo lado do olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado, porque descubro realidades do universo que ele não suspeita e de que está privado.” [p.25]
A esse respeito,
embora Freud admita haver através das tecnologias e dos
desenvolvimentos na ciência e medicina um ”positivo ganho de
prazer e um inequívoco aumento na sensação de felicidade”
[p.32], ele afirma que o que a civilização faz é nada mais do que
procurar soluções para males que ela mesma causou e questiona o
valor da vida longa – conquista do avanço das ciências – diante
das dores e infelicidades causadas pela própria civilização.
O autor entende
que “a palavra ‘civilização’ designa a inteira soma das
realizações e instituições que afastam a nossa vida daquela de
nossos antepassados animais, e que servem para dois fins: a proteção
do homem contra a natureza e a regulamentação dos vínculos dos
homens entre si.” [p.34] e que a cultura é um dos seus principais
traços característicos, sendo culturais “todas as atividades e
valores que são úteis para o ser humano, colocando a terra a seu
serviço, protegendo-o da violência das forças naturais
etc.”[p.34]; aponta ainda como traços culturais o uso de
instrumentos, o domínio sobre o fogo e a construção de moradias.
Ainda segundo
Freud, a produção e o uso desses instrumentos, que aperfeiçoam
seus órgãos ou eliminam os obstáculos ao desempenho dos mesmos,
aproximou o homem do ideal que esse faz dos deuses, oniscientes e
onipotentes, tornando-se ele próprio “quase um Deus”[p.36] tal
como Jacinto afirma no episódio acima narrado.
Além desses já
citados fatores, Freud lista como indicadores de civilização ordem,
limpeza, cultivo à beleza às atividades psíquicas mais elevadas,
nas quais estão incluídas atividades que se reservam à construção
de ideias: realizações intelectuais, científicas e artísticas,
além dos sistemas religiosos e, por fim, as relações sociais.
Dessa última emergem os elementos culturais, como “
a primeira tentativa de regulamentar essas relações.”[p.40]
Para que os
homens estabeleçam relações sociais, é preciso que haja uma vida
humana em comum, na qual o poder do indivíduo é substituído pelo
da comunidade. Segundo Freud, esse é o passo cultural decisivo; a
ele se segue a instituição da justiça, tendo como resultado final,
nas palavras de Freud, “um direito para o qual todos contribuem com
sacrifício de seus instintos, e que não permite que ninguém se
torne vítima da força bruta.”[p.41]. Freud afirma ainda que “O
homem civilizado trocou um tanto de felicidade por um tanto de
segurança”[p.61]
Fica claro que,
dessa forma, a civilização reprime boa parte da liberdade e muitos
instintos naturais do homem – inclusive os sexuais, que devem ser
deslocados para atividades socialmente úteis, configurando o que
Freud chamou de sublimação do instinto.
A atitude de
Jacinto, num segundo momento do romance, de se mudar para o campo por
ter sua felicidade frustrada enquanto levava uma vida extremamente
monótona na cidade mesmo com todos os aparatos tecnológicos e
científicos que possuía parece convergir com a teoria de Freud
sobre o mal estar a que a civilização lega o sujeito. Dessa fora,
Jacinto procura um equilíbrio entre a “civilidade”- expressa no
aposento 202, na cidade - e a “não
civilidade”, marcada pela amplidão, liberdade e leveza da Quinta
de Tormes, no campo, onde Jacinto finalmente alcança a felicidade e
a prosperidade.

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