Freud aponta o embate de duas forças opostas e igualmente poderosas dentro do indivíduo, “que raramente se apresentam separadas uma da outra, mas que se ligam em proporções muito variáveis, tornando-se assim irreconhecíveis ao nosso juízo.”[p.65] São elas: o instinto do Eu e os instintos objetais. O instinto do Eu estaria relacionado àquele desejo que tem o homem de manter o seu ser individual e o instinto objetal se relaciona com o amor dirigido aos objetos por necessidade de conservação da espécie – a saber, chamado por Freud de Libido.
Segundo Freud, o ser humano possui uma natureza
agressiva, um pendor natural para a agressão e para o mal,
sentimento esse que, ao contrário de Eros, procura dissolver as
unidades e “conduzi-las ao estado primordial inorgânico.”[p.64]A
esse sentimento, Freud chama Instinto de morte e reconhece que “a
civilização tem aí o seu mais poderoso obstáculo”[p.68]
Sobre tal instinto ele afirma que “ainda na
mais cega fúria destruidora, é impossível não reconhecer que sua
satisfação está ligada a um prazer extraordinariamente elevado,
pois mostra ao Eu a realização de seus antigos desejos de
onipotência.”[p.67]. Mas, na civilização, esse instinto deve ser
domado, moderado e, dirigido aos objetos, “proporcionar ao Eu a
satisfação das suas necessidades vitais e o domínio sobre a
natureza.”[p.67]
Freud conclui que a cultura “é um processo a
serviço de Eros, que pretende juntar indivíduos isolados, famílias,
depois etnias, povos e nações numa grande unidade, a
humanidade[...] Mas a esse programa de cultura se opõe o instinto
natural de agressão dos seres humanos, a hostilidade de um contra
todos e de todos contra um. Esse instinto de agressão é o derivado
e representante maior do instinto de morte, que encontramos ao lado
de Eros e que partilha com ele o domínio do mundo.”[p.68]
Assim, ainda segundo Freud, tanto a evolução
cultural quanto a evolução da espécie humana estariam pautadas na
luta entre o instinto de vida e o instinto de destruição, entre
Eros e a morte. Nas palavras de Freud, “essa luta é o conteúdo
essencial da vida, e por isso a evolução cultural pode ser
designada brevemente, como a luta vital da espécie humana.”[p.68]
Essa agressividade inata deve, para o sucesso da
vida civilizada, ser inibida. A responsável por essa inibição, é
a cultura, que o faz através da estipulação de parâmetros morais,
ditando ao ser humano aquilo que é bom e o que é mau. De posse
desses valores, o homem, ao reconhecer o bom e o mau, cria uma
instância controladora interna - chamada por Freud de Super-eu -, a
qual se atribui a “consciência”, que tem por objetivo, através
do sentimento de culpa, punir o homem quando este faz ou pensa em
fazer algo que entende como mau. A cultura consegue, dessa forma,
redirecionar a agressividade para dentro do próprio homem: “A
agressividade é introjetada, internalizada, mas é propriamente
mandada de volta para o lugar de onde veio, ou seja, é dirigida
contra o próprio Eu.” [p.69].
Freud explica ainda que o motivo pelo qual o
homem permite intervenção externa sobre seus atos através da
determinação de valores, regras e condutas está ligado ao medo da
perda do amor: “O ser humano[...] deve ter um motivo para se
submeter a essa influência externa. Podemos enxergá-lo no desamparo
e na dependência dos outros, e a melhor designação para ele seria
o medo da perda do amor.”[p.70]
Freud conclui no último capítulo de seu livro O
mal-estar na civilização que o maior
problema da evolução cultural é o sentimento de culpa, que, ao
lado da necessidade de repressão dos instintos naturais, contribui
para a não realização da felicidade humana: “O preço do
progresso cultural é a perda de felicidade pelo acréscimo do
sentimento de culpa.”[p.81]
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