Na introdução de sua obra, Freud trata da concepção de seu amigo, a saber, Romain Rolland - sobre genuína fonte da religiosidade, concebida com um sentimento cuja sublimação se dá tal qual uma sensação de eternidade, um sentimento como o de algo sem limites, sem barreiras, um sentimento "oceânico". Tal sentimento seria um fato puramente subjetivo enão um artigo de fé.
Entretanto, Freud, por sua vez, alega "não consigo descobrir esse sentimento "oceânico" em mim mesmo" [p.8] Tal sentimento seria então como um união indissolúvel, de pertencimento ao todo do mundo exterior que na concepção do psicanalista faz parte de um eu que nos parece "autônomo, unitário e bem demarcado de tudo o mais, isto é, configura-se como uma fachada construída pelo indivíduo durante a sua fase de amadurecimento. Tal fachada procura dar conta de um sentimento interno muito mais amplo e complexo, cujas fronteiras não são permanentes.
Isso se dá porque, segundo o autor, o indivíduo quando bebê não separa o seu Eu de um mundo exterior, mas aprende a fazê-lo aos poucos, em resposta a estímulos diversos, passando por experiências que o levariam a distinguir o que é interior e o que é exterior a ele até que se atinja o princípio de realidade. Assim, o Eu, que no início abarca tudo, se desliga do mundo. Freud sinaliza ainda a possibilidade de esse Eu ter conservado na vida psíquica dos homens parte daquele sentimento primário de ligação com o mundo e a esse fato estaria ligado o que seu amigo chamou "sentimento oceânico".
"Se é lícito supormos que esse primário sentimento do Eu foi conservado na vida psíquica de muitos homens, então ele ficaria ao lado do mais estreito e mais nitidamente limitado sentimento do Eu da época madura, como uma espécie de contraparte dele, e os seus conteúdos ideativos seriam justamente os da ausência de limites e de ligação com o todo, os mesmos que meu amigo ilustra como sentimento oceânico." [p.11]
Nenhum comentário:
Postar um comentário