quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O sentimento oceânico

 Sentimento de união indissolúvel, de pertencimento ao todo do mundo exterior.


Eu mergulhando no sentimento oceânico pelo pincel do talentoso artista Thiago da Costa.

Álvaro de Campos

E quanto ao que se pode querer da nossa civilização o poeta responde: NADA!

Lisbon Revisited (1923)

Não: não quero nada. 

Já disse que não quero nada. 

Não me venham com conclusões! 
A única conclusão é morrer. 

Não me tragam estéticas! 
Não me falem em moral! 

Tirem-me daqui a metafísica! 
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas 
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — 
Das ciências, das artes, da civilização moderna! 

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na! 

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. 
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. 
Com todo o direito a sê-lo, ouviram? 

Não me macem, por amor de Deus! 

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? 
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? 
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. 
Assim, como sou, tenham paciência! 
Vão para o diabo sem mim, 
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! 
Para que havemos de ir juntos? 

Não me peguem no braço! 
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho. 
Já disse que sou sozinho! 
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! 

Ó céu azul — o mesmo da minha infância — 
Eterna verdade vazia e perfeita! 
Ó macio Tejo ancestral e mudo, 
Pequena verdade onde o céu se reflete! 
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! 
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta. 

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo... 
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

O mal estar na civilização

Nesse post, encaminho um vídeo que reúne as ideias principais discutidas por Freud em O mal estar na civilização, além de conjugá-las perfeitamente com os problemas que temos encontrado em nossa sociedade nos dias atuais.
Para ilustrar as mazelas da nossa sociedade, esse vídeo utiliza as diferenças sociais, culturais e étnicas tão presentes no nosso dia a dia, evidenciando a contradição de uma civilização que falaciosamente nos oferece segurança e justiça. 

Desastres naturais que fogem ao controle até mesmo da nossa tão desenvolvida ciência, como maremotos e erupções vulcânicas que destruíram cidades inteiras deixando milhares de mortos e outros tantos desabrigados, ilustram a impotência humana diante da força da natureza. 

Além disso, também aparecem como pontos negativos trazidos pela civilização a solidão, poluição, inchaço nas grandes cidades, vida caótica, o uso abusivo de medicamentos, a dependência química, entre outros.

Como uma das piores e mais vergonhosas consequências dessa vida teoricamente civilizada que levamos hoje, aparecem as grandes tragédias mundiais provocadas pelos próprios homens, por seu ódio, ignorância e desamor: guerras mundiais, a bomba de Hiroshima, o holocausto, entre tantos outros massacres coletivos que o mundo já testemunhou. Assim, fica o vídeo, a crítica e a proposta de reflexão sobre o tipo de "civilização" na qual vivemos hoje.



A cidade e as serras, uma análise freudiana

                          Civilização e tecnologia em A cidade e as serras, Eça de Queirós



Freud salienta que os homens buscam uma superação dos 2 primeiros fatores causadores de sofrimento através das ciências naturais e tecnológicas numa busca de domínio sobre a natureza e sobre o corpo mas ele lembra ainda que “o poder sobre a natureza não é condição única da felicidade humana, assim como não é único objetivo dos esforços culturais.” [p. 32].
No livro A cidade e as serras, Eça de Queirós ilustra através da personagem Jacinto a crença de que a felicidade que o homem busca tão incansavelmente estaria diretamente ligada à civilização e às suas tecnologias que, nas palavras dele, tornariam o homem “um magnífico Adão, quase onipotente, quase onisciente, e apto, portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do progresso todos os gozos e todos os proveitos que resultam de saber e poder.” [p.24]

Dessa maneira, Jacinto acredita, que quanto mais civilizado é o homem, mais feliz ele é. Há um episódio em que Jacinto mostra ao seu amigo Zé Fernandes as maravilhosas alterações que as próteses podem proporcionar ao corpo humano. Ele usa um binóculo e um telescópio para demonstrar a capacidade de potencialização que têm esses objetos sobre a visão humana e conclui: “tens aqui pois, o olho primitivo, o da natureza, elevado pela civilização à sua máxima potência de visão. E desde já, pelo lado do olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado, porque descubro realidades do universo que ele não suspeita e de que está privado.”
[p.25]
A esse respeito, embora Freud admita haver através das tecnologias e dos desenvolvimentos na ciência e medicina um ”positivo ganho de prazer e um inequívoco aumento na sensação de felicidade” [p.32], ele afirma que o que a civilização faz é nada mais do que procurar soluções para males que ela mesma causou e questiona o valor da vida longa – conquista do avanço das ciências – diante das dores e infelicidades causadas pela própria civilização.
O autor entende que “a palavra ‘civilização’ designa a inteira soma das realizações e instituições que afastam a nossa vida daquela de nossos antepassados animais, e que servem para dois fins: a proteção do homem contra a natureza e a regulamentação dos vínculos dos homens entre si.” [p.34] e que a cultura é um dos seus principais traços característicos, sendo culturais “todas as atividades e valores que são úteis para o ser humano, colocando a terra a seu serviço, protegendo-o da violência das forças naturais etc.”[p.34]; aponta ainda como traços culturais o uso de instrumentos, o domínio sobre o fogo e a construção de moradias.
Ainda segundo Freud, a produção e o uso desses instrumentos, que aperfeiçoam seus órgãos ou eliminam os obstáculos ao desempenho dos mesmos, aproximou o homem do ideal que esse faz dos deuses, oniscientes e onipotentes, tornando-se ele próprio “quase um Deus”[p.36] tal como Jacinto afirma no episódio acima narrado.
 Além desses já citados fatores, Freud lista como indicadores de civilização ordem, limpeza, cultivo à beleza às atividades psíquicas mais elevadas, nas quais estão incluídas atividades que se reservam à construção de ideias: realizações intelectuais, científicas e artísticas, além dos sistemas religiosos e, por fim, as relações sociais. Dessa última emergem os elementos culturais, como “      a primeira tentativa de regulamentar essas relações.”[p.40]
 Para que os homens estabeleçam relações sociais, é preciso que haja uma vida humana em comum, na qual o poder do indivíduo é substituído pelo da comunidade. Segundo Freud, esse é o passo cultural decisivo; a ele se segue a instituição da justiça, tendo como resultado final, nas palavras de Freud, “um direito para o qual todos contribuem com sacrifício de seus instintos, e que não permite que ninguém se torne vítima da força bruta.”[p.41]. Freud afirma ainda que “O homem civilizado trocou um tanto de felicidade por um tanto de segurança”[p.61] 
Fica claro que, dessa forma, a civilização reprime boa parte da liberdade e muitos instintos naturais do homem – inclusive os sexuais, que devem ser deslocados para atividades socialmente úteis, configurando o que Freud chamou de sublimação do instinto.
A atitude de Jacinto, num segundo momento do romance, de se mudar para o campo por ter sua felicidade frustrada enquanto levava uma vida extremamente monótona na cidade mesmo com todos os aparatos tecnológicos e científicos que possuía parece convergir com a teoria de Freud sobre o mal estar a que a civilização lega o sujeito. Dessa fora, Jacinto procura um equilíbrio entre a “civilidade”- expressa no aposento 202, na cidade - e a “não civilidade”, marcada pela amplidão, liberdade e leveza da Quinta de Tormes, no campo, onde Jacinto finalmente alcança a felicidade e a prosperidade.

O sentimento de culpa


Freud aponta o embate de duas forças opostas e igualmente poderosas dentro do indivíduo, “que raramente se apresentam separadas uma da outra, mas que se ligam em proporções muito variáveis, tornando-se assim irreconhecíveis ao nosso juízo.”[p.65] São elas: o instinto do Eu e os instintos objetais. O instinto do Eu estaria relacionado àquele desejo que tem o homem de manter o seu ser individual e o instinto objetal se relaciona com o amor dirigido aos objetos por necessidade de conservação da espécie – a saber, chamado por Freud de Libido.
Segundo Freud, o ser humano possui uma natureza agressiva, um pendor natural para a agressão e para o mal, sentimento esse que, ao contrário de Eros, procura dissolver as unidades e “conduzi-las ao estado primordial inorgânico.”[p.64]A esse sentimento, Freud chama Instinto de morte e reconhece que “a civilização tem aí o seu mais poderoso obstáculo”[p.68]
Sobre tal instinto ele afirma que “ainda na mais cega fúria destruidora, é impossível não reconhecer que sua satisfação está ligada a um prazer extraordinariamente elevado, pois mostra ao Eu a realização de seus antigos desejos de onipotência.”[p.67]. Mas, na civilização, esse instinto deve ser domado, moderado e, dirigido aos objetos, “proporcionar ao Eu a satisfação das suas necessidades vitais e o domínio sobre a natureza.”[p.67]
Freud conclui que a cultura “é um processo a serviço de Eros, que pretende juntar indivíduos isolados, famílias, depois etnias, povos e nações numa grande unidade, a humanidade[...] Mas a esse programa de cultura se opõe o instinto natural de agressão dos seres humanos, a hostilidade de um contra todos e de todos contra um. Esse instinto de agressão é o derivado e representante maior do instinto de morte, que encontramos ao lado de Eros e que partilha com ele o domínio do mundo.”[p.68]
Assim, ainda segundo Freud, tanto a evolução cultural quanto a evolução da espécie humana estariam pautadas na luta entre o instinto de vida e o instinto de destruição, entre Eros e a morte. Nas palavras de Freud, “essa luta é o conteúdo essencial da vida, e por isso a evolução cultural pode ser designada brevemente, como a luta vital da espécie humana.”[p.68]
Essa agressividade inata deve, para o sucesso da vida civilizada, ser inibida. A responsável por essa inibição, é a cultura, que o faz através da estipulação de parâmetros morais, ditando ao ser humano aquilo que é bom e o que é mau. De posse desses valores, o homem, ao reconhecer o bom e o mau, cria uma instância controladora interna - chamada por Freud de Super-eu -, a qual se atribui a “consciência”, que tem por objetivo, através do sentimento de culpa, punir o homem quando este faz ou pensa em fazer algo que entende como mau. A cultura consegue, dessa forma, redirecionar a agressividade para dentro do próprio homem: “A agressividade é introjetada, internalizada, mas é propriamente mandada de volta para o lugar de onde veio, ou seja, é dirigida contra o próprio Eu.” [p.69].
Freud explica ainda que o motivo pelo qual o homem permite intervenção externa sobre seus atos através da determinação de valores, regras e condutas está ligado ao medo da perda do amor: “O ser humano[...] deve ter um motivo para se submeter a essa influência externa. Podemos enxergá-lo no desamparo e na dependência dos outros, e a melhor designação para ele seria o medo da perda do amor.”[p.70]
Freud conclui no último capítulo de seu livro O mal-estar na civilização que o maior problema da evolução cultural é o sentimento de culpa, que, ao lado da necessidade de repressão dos instintos naturais, contribui para a não realização da felicidade humana: “O preço do progresso cultural é a perda de felicidade pelo acréscimo do sentimento de culpa.”[p.81]



Romain Rolland


Na introdução de sua obra, Freud trata da concepção de seu amigo, a saber, Romain Rolland - sobre genuína fonte da religiosidade, concebida com um sentimento cuja sublimação se dá tal qual uma sensação de eternidade, um sentimento como o de algo sem limites, sem barreiras, um sentimento "oceânico". Tal sentimento seria um fato puramente subjetivo enão um artigo de fé. 

Entretanto, Freud, por sua vez, alega "não consigo descobrir esse sentimento "oceânico" em mim mesmo" [p.8] Tal sentimento seria então como um união indissolúvel, de pertencimento ao todo do mundo exterior que na concepção do psicanalista faz parte de um eu que nos parece "autônomo, unitário e bem demarcado de tudo o mais, isto é, configura-se como uma fachada construída pelo indivíduo durante a sua fase de amadurecimento. Tal fachada procura dar conta de um sentimento interno muito mais amplo e complexo, cujas fronteiras não são permanentes.

 Isso se dá porque, segundo o autor, o indivíduo quando bebê não separa o seu Eu de um mundo exterior, mas aprende a fazê-lo aos poucos, em resposta a estímulos diversos, passando por experiências que o levariam a distinguir o que é interior e o que é exterior a ele até que se atinja o princípio de realidade. Assim, o Eu, que no início abarca tudo, se desliga do mundo. Freud sinaliza ainda a possibilidade de esse Eu ter conservado na vida psíquica  dos homens parte daquele sentimento primário de ligação com o mundo e a esse fato estaria ligado o que seu amigo chamou "sentimento oceânico".
"Se é lícito supormos que esse primário sentimento do Eu foi conservado na vida psíquica de muitos homens, então ele ficaria ao lado do mais estreito e mais nitidamente limitado sentimento do Eu da época madura, como uma espécie de contraparte dele, e os seus conteúdos ideativos seriam justamente os da ausência de limites e de ligação com  o todo, os mesmos que meu amigo ilustra como sentimento oceânico." [p.11] 

A busca pela felicidade

     O princípio do prazer

Em O mal estar na civilização(1930), Freud revela que o objetivo do homem na vida é alcançar a felicidade. Segundo ele, o homem “quer a ausência de dor e desprazer e, por outro lado, a vivência de fortes prazeres.”[p.19]. A essas duas metas corresponde o chamado princípio do prazer. Freud afirma que "é simplesmente o programa do princípio do prazer que estabelece a finalidade da vida." [p.20] contudo, ele é absolutamente irrealizável, visto que todas as disposições do universo contrariam: "Seria possível dizer que o propósito de que o homem seja feliz não faz parte do plano da criação" [p.20]. Freud assinala ainda que o homem não pode ser feliz o tempo todo, que felicidade é momento, não estado: "aquilo que chamamos 'felicidade', no sentido mais estrito, vem da satisfação repentina de necessidades altamente represadas, e por sua natureza é possível apenas como fenômeno episódico" [p.20]. Freud identifica 3 fontes de sofrimento para o homem que o impede de alcançar a tão almejada felicidade. São elas:
  • a prepotência da natureza;
  • a fragilidade de nosso corpo;
  • a insuficiência das normas que regulam os vínculos humanos na família, no estado e na sociedade.                                                                                                                
O psicanalista aponta a civilização como a maior responsável pelo sofrimento do homem:  "Boa tarde da culpa por nossa miséria vem do que é chamado de nossa civilização" [p.31]. Entramos, portanto, numa contradição - reconhecida pelo próprio Freud ao afirmas que "tudo aquilo com que nos protegemos da ameaça das fontes do sofrer  é parte da civilização" [p.31]. Através da repressão dos instintos naturais do homem, a civilização produz homens neuróticos: "Descobriu-se que o homem se torna neurótico porque não pode suportar a medida de privação que a sociedade lhe impõe, em prol de seus ideais culturais." [p.32]